Mobilidade diária na Cidade de Francisco Morato, a partir de 1970

A cidade de São Paulo manifesta em seu histórico o processo de metropolização, com crescimento de algumas cidades e ao mesmo tempo, o surgimento e expansão de periferias ao seu redor. Esse processo se deu, em parte, pela mobilidade da população com menor poder aquisitivo para áreas mais distantes, onde o valor do solo urbano fosse menor. Por outro lado, a cidade de São Paulo se manteve como principal local de destino aos seus ex-residentes que para lá continuam se deslocando em busca de trabalho. A mobilidade pendular depende não apenas de características sócio econômicas dos municípios de residência, mas também da distância destes municípios de residência até os grandes centros metropolitanos. Esse movimento, de modo geral, está menos presente em municípios agrícolas e industrializados, enquanto que nos caracterizados como periféricos ou dormitórios os índices são elevados. Os deslocamentos diários das populações oriundas destes municípios ocorrem em variadas direções e são orientados por diversos motivos, dentre esses o trabalho, o estudo, o consumo, o lazer, a saúde e os negócios. Esses deslocamentos constituem elementos integrantes da realidade das grandes cidades e refletem suas desigualdades sociais e espaciais. Sua análise permite a observação dos obstáculos existentes nas cidades de origem dessas populações. É possível analisar os deslocamentos na Região Metropolitana de São Paulo por meio dos trajetos (fluxos) que apontam, simultaneamente, os deslocamentos estabelecidos entre os municípios de residência (origem) dos indivíduos e o dos municípios de trabalho ou estudo (destino) dos mesmos. Os mapeamentos desses trajetos mostram o grau de relacionamento existente entre os municípios e indica a relevância de dinâmicas localizadas em sub-áreas que coexistem com a mobilidade metropolitana centralizada no município de São Paulo. Este exerce uma “hegemonia” nos deslocamentos pendulares, uma vez que atrai mais da metade dos deslocamentos metropolitanos. A seguir, o Mapa Destaca os deslocamentos em direção ao município de São Paulo, indicando que esse é constituído como área de destino para grande parcela de residentes de outras cidades pertencentes à Região Metropolitana de São Paulo, inclusive Francisco Morato.

Mapa – Deslocamentos Populacionais

Francisco Morato é o nº 12 - Fonte: Fundação Seade; IBGE. Censo Demográfico 2000.

Existem 38 trajetos com classes e volumes diferentes e, com o mesmo sentido que conecta à cidade São Paulo com toda área metropolitana. Nesse mapa, o município de Francisco Morato apresenta um deslocamento populacional superior a 20 mil indivíduos. Os municípios que destinam essas populações de trabalhadores com sentido à cidade São Paulo apresentam características geográficas e de acessibilidade semelhantes, pois são circunvizinhos ou estão interligados por importantes sistemas de transporte público, como por exemplo, a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que atende a demanda exigida pelo município de Francisco Morato, dentre outros. 

Os trajetos revelam que a Metrópole de São Paulo exerce uma importante centralidade, traduzida não apenas na oferta de emprego, mas também na disponibilidade de serviços na área da educação, saúde e atividades comerciais com maior grau de especialização. Essas ocorrências são favorecidas pelo fato dos municípios estarem interligados por um importante sistema viário e de ferrovia orientado para praticamente todas as direções da área metropolitana. 

A atual Linha 7/Rubi da CPTM, a antiga ferrovia Santos-Jundiaí, garante à população moratense a mobilidade e a acessibilidade para o Centro Paulistano e demais regiões da Região Metropolitana de São Paulo. Parte dessa população possui menor poder aquisitivo e por isso optaram por áreas mais baratas para residir, procurando manter seus empregos e dar continuidade aos estudos. “Como era de se esperar, a renda é novamente um fator fortemente diferenciador, com o aumento da proporção das viagens longas conforme diminui a renda familiar” (DEÁK, 1990).

A ferrovia contribui para que a cidade de Francisco Morato proporcione a pendularidade metropolitana. Assim, a Grande São Paulo torna-se um pólo receptor diário. 

Entretanto, observa-se também que os municípios tratados como “dormitórios” não são apenas áreas de saída de residentes para outros municípios. Estes também se tornam pontos de chegada de população ocupada, o que parece ser bastante significativo para o entendimento da complexidade dos processos metropolitanos de ir-e-vir. Em Francisco Morato, 5,9% dos ocupados que aí trabalham residem em outros municípios;

Mapa - Deslocamentos Populacionais

Linha 7 (Rubi) da CPTM e Francisco Morato: Dependência econômica?

É notória a importância da Linha 7/Rubi da CPTM para o município de Francisco Morato ao observar o número de embarque, sua disponibilidade de emprego e o deslocamento de sua população economicamente ativa.

Gráfico – População economicamente Ativa no ano 2000 em Francisco Morato

Tabela – Circulação e Transporte Sub-Região Norte e Municípios Viagens Diárias Internas e Externas à Sub-Região – todos os Motivos – 2002 - Estação de Trem

Origem Para outras Sub-Regiões Para o Município de São Paulo Total
Caieiras 4.273 24.347 28.620
Cajamar 4.779 7.144 11.923
Francisco Morato 4.236 35.305 39.541
Franco da Rocha 2.656 21.695 24.551
Mairiporã 3.150 10.356 13.506
Total 19.094 98.847 118.141

Fonte: Aferição da Pesquisa Origem e Destino 2002 – Cia do Metropolitano Metrô - SP Elaboração: Emplasa Conforme o gráfico, a população economicamente ativa (PEA) do município de Francisco Morato era equivalente a 63%. Segundo a Fundação Seade, a população projetada para o ano de 2002, em Francisco Morato, era de 143.965 habitantes, o que permite dizer que 90.697 pessoas representam a força de trabalho (PEA) do município. De acordo com a Tabela, 39.541 pessoas embarcam diariamente com destino a Região Metropolitana de São Paulo e outras sub-regiões, ou seja, próximo de 44% dessa população economicamente ativa depende da ferrovia, já que o deslocamento por carro e ônibus para as regiões já citadas é muito pequeno.

Recorte de reportagem local evidenciando a importância econômica da ferrovia

A dependência do município tornou-se visível no ano de 1996, quando os trens ficaram paralisados por quatro meses após a depredação de estações e composições, promovida por usuários em momento de fúria, após sucessivos atrasos e redução de velocidade.

Recorte do Jornal Ida e Volta (Imprensa Local), Ano VI, nº 312, de 13 de dezembro de 1996. A reportagem relata, na época, as dificuldades que o comércio local estava enfrentando devido à queda de consumidores e os desafios que os trabalhadores tinham que enfrentar para chegarem até seus trabalhos. Muitos perderam o emprego, pois o deslocamento para a Grande São Paulo tornou-se tarefa árdua e bastante demorada. Trabalhadores informais, tais como camelôs ou marreteiros, também sentiram forte queda em suas vendas. Muitos se deslocaram das áreas próximas das estações e outros pontos com movimentos mais dinamizados pela cidade. Segundo relatos de muitos trabalhadores informais, nenhum ponto na cidade é tão atrativo como os mais próximos à estação. Recorte cedido gentilmente por Marcelo Jacomini. Esse período, de paralisação do sistema férreo com destino a Francisco Morato provocou outras ocorrências negativas para a cidade, tais como rápida deterioração do asfalto das principais vias públicas do centro, devido ao aumento da circulação de ônibus. O número de acidentes de trânsito envolvendo trabalhadores da região também aumentou, sobretudo nas estradas de acesso à Grande São Paulo.

Recorte do Jornal Ida e Volta (Imprensa Local), Ano VI, nº 302, de 18 de outubro de 1996. A reportagem relata a importância da ferrovia para o transporte de milhares de pessoas – 1,2 milhões/dia - e as condições técnicas encontradas. A partir desse evento de depredação de trens e estações, o Governo do Estado realizou importantes investimentos, o que contribuiu para uma melhora significativa na qualidade desse transporte.Recorte cedido gentilmente por Marcelo Jacomini.

A influência da ferrovia na mobilidade da população moratense

A atual rede de transporte sobre trilhos da CPTM conta com 260,8 km de extensão e 89 estações em operação, distribuídas em seis linhas, atendendo 22 municípios . A partir dos anos 90, a CPTM passou a controlar esse tipo de transporte na Região Metropolitana de São Paulo e, completou a unificação do sistema que herdou da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU) e da Ferrovia Paulista S.A. (Fepasa). 

A linha 7 (Rubi) da CPTM atende ao município de Francisco Morato, percorrendo as estações Luz – Francisco Morato / Francisco Morato – Jundiaí, em um trajeto com 60,5 Km de extensão. As estações funcionam das 4h00 às 24h00, e são transportados em média 295 mil passageiros/dia . 

“o conjunto de municípios integrados econômica e socialmente a uma metrópole, principalmente por dividirem com ela uma estrutura ocupacional e uma forma de organização do espaço característica e por representarem, no desenvolvimento do processo, a sua área de expansão próxima ou remota” (GALVÃO et al., 1969, p.56)